quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O GRANDE TRUQUE


Com O grande truque o diretor de Amnésia novamente obriga o espectador a querer rever o filme.

Quem não assistiu ao ótimo Amnésia, talvez (para prejuízo seu) não tenha paciência para acompanhar o complexo desenrolar dos mistérios de O grande truque, mas para quem já se habitou com o modo com que Cristopher Nolan narra uma história e sabe que vale a pena assistir seus filmes até o final, será recompensado com uma ótima diversão que, o melhor de tudo, dá o que pensar. O diretor de Batman begins, que também está dirigindo The dark knight (O Cavaleiro das Trevas), próximo filme do morcegão, narra, ou melhor, monta um quebra-cabeça envolvendo dois mágicos rivais que, durante o final do século XIX, levam até as últimas conseqüências uma disputa para ver quem oferece ao público o truque mais extraordinário. Antes mesmo de atuar na pele de Bruce Wayne em Batman Begins Christian Bale já havia se consagrado como um ator de peso, sua brilhante atuação em O grande truque só vem corroborar isso. Já Hugh “Wolverine” Jackman ainda precisa provar, pelo menos para os críticos mais exigentes, seu potencial como ator, mas com sua atuação nesse filme ele mostra que não tardará a conseguir tal feito. O filme também tem como pontos altos os cenários e os figurinos que retratam o final do século XIX com muita sutileza e beleza. O grande truque não é um filme com uma narrativa muito comum, por isso, pode causar certa estranheza a princípio, porém, ao final, consegue o grande feito de fazer com que o espectador não apague imediatamente o filme da cabeça, como normalmente acontece, mas que fique pensando sobre o que acabou de ver e que, provavelmente, terá que rever.

O OPERÁRIO


FILME BASEADO NOS ROMANCES DE DOSTOIEVSKI DISSECA OS EFEITOS DA CULPA.

Um operário de uma indústria sofre de uma estranha crise de sono, que o torna responsável por um grave acidente envolvendo um colega de trabalho. Ele acusa um empregado novo de ser o real culpado pelo acidente, só que ninguém, fora ele próprio, sabe de quem se trata. Assim, ele se vê subitamente vitimado por uma engenhosa conspiração, buscando a todo custo encontrar o culpado. Claramente baseado nos romances do escritor russo Dostoievski (há inclusive uma referência ao mestre em uma cena), o longa não traz aparentemente nada de novo, mas se assistido com cuidado mostra de uma maneira interessante como uma auto-sabotagem se efetiva, dando margem a uma melhor compreensão de vários aspectos do comportamento humano. Christian Bale está simplesmente espetacular, afora a impressionante magreza exibida pelo ator, sua interpretação sustenta o clima tenso e angustiante do filme.

QUARTETO FANTÁSTICO E O SURFISTA PRATEADO



O segundo filme da família de heróis supera o primeiro, mas ainda se mantém preso ao apelo infantil.

Seguindo a fórmula já padronizada nas grandes franquias hollywoodianas, o segundo filme do Quarteto consegue ser bem melhor do que o primeiro (o problema sempre está no terceiro filme). A trama gira em torno da chegada de uma entidade cósmica na Terra: o Surfista Prateado, que anuncia o iminente fim do mundo. O sucesso da técnica utilizada para criar o Surfista é o ponto alto do filme (além da volta de Jéssica Alba como a Mulher-Invisível, é claro). Tim Story chamou o estúdio Weta (também responsável por dar vida ao Gollum) para, a partir da atuação de Doug Jones (que também está por baixo da pele escamosa de Abe Sapien em “Hellboy” e do Fauno no “Labirinto do Fauno”) animar um dos personagens que se destaca entre os mais realistas elaborados em CGI. A personalidade misteriosa e a voz marcante do Surfista (Laurence Fishburne, “O Morfeu”) também roubam a cena no filme. Contudo, “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” peca pelas poucas cenas de ação realmente empolgantes, o excesso de piadas, as delongas com a preparação do casamento de Reed e Sue, os efeitos tipo “Tom e Jerry” usados em algumas cenas do Dr. Fantástico, a fraca subtrama envolvendo o Tocha, e, principalmente, o desperdício com um dos vilões que, juntamente com o Magneto, mais enobrecem a galeria de vilões do universo Marvel: o Dr. Destino. A voz do ator que interpreta Destino é por demais “fraca” e não carrega todo o orgulho e soberba que o personagem exige (mas, quando ele volta a usar a máscara, a coisa dá uma melhorada). Ademais, a rivalidade de Destino com Reed é o que mais movimenta e enriquece a trama nos quadrinhos. Mas, no longa, isso não aparece, e o vilão acaba ficando sem uma motivação que realmente o torne singular e interessante. Fora tudo isso, quem, como eu, gostaria de ver o Surfista protagonizando cenas de ação espetaculares, decepciona-se: os grandes momentos do personagem acontecem simplesmente com ele...surfando. Seu mestre, Galactus, apesar das declarações contrárias de Tim Story para a imprensa, não passa mesmo de uma nuvem. O derradeiro confronto entre o Surfista e o Galactus não possui, ao meu ver, qualquer sentido. A sensação que temos é que os roteiristas não tinham a mínima idéia de como terminar a trama, e daí inventaram um final estapafúrdio. Todavia, o filme ainda diverte. Os problemas que Tocha tem com seus poderes, levam-no a uma cena de ação final bem bacana entre ele e o Destino (apesar disso acabar de vez com as chances da equipe toda se envolver numa grande cena de batalha ainda aguardada), além de momentos bem engraçados com o resto da equipe e... bem, temos o Surfista, ora! Personagem que, provavelmente, terá uma aventura solo!

SUNSHINE – ALERTA SOLAR


Sunshine, Inglaterra, 2007. De Danny Boyle. Com Cillian Murphy, Chris Evans. 108 min. Ficção Científica.

Com a enxurrada de filmes sobre super heróis no cinema (não que eu esteja reclamando), o gênero de ficção científica ficou relegado a séries de televisão capengas que ainda hoje insistem em tentar ressuscitar “Star Trek” (Jornada nas Estrelas). Por isso, quem tem saudades de filmes como “2001: uma odisséia no espaço” e “Alien: o 8º passageiro” não pode perder a oportunidade de revisitá-los em “Sunshine”, filme dirigido pelo inglês Danny Boyle, diretor de “Extermínio”. O filme narra a missão da tripulação da nave Ícaro II (nome bem legal, é só consultar a mitologia grega) para soltar uma bomba no núcleo solar a fim de reascender o astro rei que está morrendo ameaçando a vida na Terra. O longa conta com as atuações de Cilliam Murphy (“Extermínio” e “Batman Begins”, o Espantalho) e de Chris Evans (o Tocha do “Quarteto Fantástico”, coincidência e tanto). Os cenários são bastante sombrios, o que garante um clima bem realista. As imagens do sol são extremamente belas. Talvez alguém possa achar a história um pouco monótona no início, o que possivelmente se deva a inspiração clara dos dois filmes supracitados, os quais, a despeito de serem obras-primas indiscutíveis, podem acabar sendo vistos como contendo um ritmo por demais lento para o expectador atual, porém eu creio que vale a pena aumentar a dosagem da cafeína e ser surpreendido por um ótimo filme. Vale também dizer que o que mais me interessou em “Sunshine” são algumas (sutis) discussões que o filme levanta sobre o papel do homem no universo e a sua relação com o transcendente.

CASSINO ROYALE


Particularmente nunca fui grande fã dos filmes do agente secreto britânico mais famoso dos cinemas, mas sempre procurei, na medida do possível, assisti-los. Muito charme e elegância, porém, pouca ação, esse era o problema dos filmes anteriores. Cassino Royale, consegue, no entanto, injetar o que faltava nas aventuras do espião, contudo, o filme não é, como alguns equivocadamente afirmaram, uma versão de Carga Explosiva: há muito menos ação no novo filme de James Bond no que do entregador maluco. Cassino Royale não se reduz apenas a explosões e tiroteios, mas isso não tira de forma alguma o mérito do longa, que tem o seu momento mais tenso, o verdadeiro clímax do filme, em um simples jogo de pôquer. Em sua primeira missão como 007, James Bond tenta impedir que um financista, que está sendo ameaçado por seus clientes terroristas, consiga recuperar seus fundos de investimento em um jogo de altas apostas. O James Bond interpretado por Daniel Craig passa da truculência para a sofisticação em questão de segundos, dando uma nova e convincente roupagem para o agente. O filme apresenta uma das cenas de tortura mais hilárias e insanas já vistas. James Bond ainda continua sendo James Bond: publicidade de traquinarias eletrônicas, exibição de lindas mulheres e de carros magníficos. No entanto, a interpretação de Daniel Craig abre um caminho inédito e bastante promissor para os filmes do agente 007. Os fãs tradicionais podem até torcer o nariz, mas esse é um dos melhores filmes de James Bond.